Os estilhaços da guerra entre Rússia e Ucrânia atravessaram oceanos e atingiram em cheio uma jovem de Feira de Santana. A mais de 10,6 mil quilômetros de distância, Helena* viu sua vida mudar ao ouvir uma mensagem de WhatsApp informando que o namorado, Jadiel Antônio Ferreira da Silva, conhecido como Júnior Pitbull, havia morrido em um ataque de drones no leste ucraniano.
O feirense estava havia apenas 45 dias no front.
Segundo relatos repassados à jovem por colegas brasileiros que atuavam na região, Júnior estava em um bunker com cerca de 40 combatentes quando drones das forças russas atingiram o local. A suspeita é de que ele tenha morrido soterrado.
“Disseram que provavelmente vão apenas colocar uma placa com os nomes de quem morreu naquele local”, contou Helena, emocionada, ao falar sobre a incerteza em relação à repatriação do corpo.
Ela afirma que o namorado não atuava oficialmente pelo Exército ucraniano como mercenário, mas integrava missões ligadas a organizações internacionais e já havia participado de operações em outros países. Segundo Helena, Júnior havia dito que viajaria para Israel. No entanto, durante uma parada em São Paulo, o grupo recebeu a informação de que seguiria para a Ucrânia, onde passaria por treinamento militar.
“Todos ficaram desconfiados”, relatou.
Helena conta que Júnior via na missão uma oportunidade de reorganizar a vida financeira. Segundo ela, ele conseguiu quitar dívidas junto à Receita Federal e planejava retornar ao Brasil após o fim do contrato, previsto para outubro, para que os dois se casassem.
“Os nossos sonhos foram destruídos”, disse, chorando.
Ela revelou ainda que uma conta bancária havia sido aberta especialmente para receber parte dos salários que ele receberia durante a missão. O dinheiro serviria para o início da vida a dois.
A relação começou em janeiro deste ano, após os dois serem apresentados por uma irmã dela, amiga do combatente. Apesar do pouco tempo de convivência, Helena descreve a relação como intensa.
“Parecia que a gente se conhecia há anos.”
Ela afirma que Júnior mudou hábitos e comportamento para ficar ao seu lado. Protestante, Helena disse que ele buscava adaptar a rotina à fé dela e aos planos construídos em comum.
Antes de embarcar, Júnior deixou uma mala com roupas em um dos quartos da casa da namorada — gesto que ela interpreta como sinal de que pretendia voltar para iniciar a convivência definitiva.
“Ainda não consegui abrir.”
Agora, a mala deverá ser entregue ao tio dele, Juarez.
Helena contou que está concluindo o curso de Administração em uma faculdade particular e que também cursou Filosofia na Universidade Estadual de Feira de Santana, embora não tenha concluído a graduação.
Segundo ela, o namorado reclamava frequentemente das condições enfrentadas na região de conflito: alimentação precária, dificuldades para dormir e até disputa por itens básicos entre combatentes estrangeiros e militares ucranianos.
Helena era o contato oficial indicado por Júnior no Brasil para situações de emergência. Ainda assim, até agora, diz não ter recebido nenhum comunicado formal das autoridades ucranianas sobre a morte.
“Pelo visto, ele sabia do risco que corria. Mas não me contou toda a verdade.”
A entrevista concedida aos repórteres Batista Cruz e Sílvio Tito, do portal Sertão Bahia, durou cerca de uma hora. Em vários momentos, Helena chorou ao recordar os planos interrompidos pela guerra.
“Mesmo sem dinheiro, ele fez o que pôde por mim. Foi gentil, respeitador. Estou sozinha no mundo. Não sei o que vai acontecer daqui para frente.”
Ela pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado nem ser fotografada, afirmando que vem sofrendo ataques e julgamentos nas redes sociais desde que a morte do namorado se tornou pública.
Amigos próximos de Júnior confirmaram ao portal Sertão Bahia que ele viajou consciente de que atuaria na Ucrânia. Segundo relatos, conhecidos tentaram convencê-lo a desistir.
Um deles afirmou que o feirense reclamava da falta de oportunidades de trabalho no Brasil e acreditava que conseguiria juntar dinheiro atuando no cenário de guerra.
Não houve tempo.
Júnior Pitbull morreu antes mesmo de receber o primeiro salário.
*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.
(Entrevista feita pelos jornalistas Batista Cruz e Silvio Tito para o portal Sertão Bahia)